Academic journal article Romance Notes

Do Conto Ao Canto: Narracao E Comunidade Em "Soroco, Sua Mae, Sua Filha"

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Do Conto Ao Canto: Narracao E Comunidade Em "Soroco, Sua Mae, Sua Filha"

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PRIMEIRAS estorias ocupa, dentro do percurso da obra de Joao Guimaraes Rosa, espaco de destaque e de transicao. Sendo imediatamente posterior a publicacao dos monumentais Corpo de baile e Grande sertao: veredas (ambos de 1956), o livro retoma o genero conto, que marcou a estreia do autor na prosa, e precede ainda um outro livro de narrativas curtas, Tutameia, em que a experimentacao do genero ganha uma radicalidade inedita no panorama da literatura brasileira.

O retorno ao conto, apos as incursoes pela novela e pelo romance, traz novidades que com o correr do tempo a critica tem podido apreciar em maior profundidade. Luiz Costa Lima, em 1963 e, portanto, apenas um ano apos a publicacao do livro, comenta sobre a parca recepcao critica obtida e ensaia uma analise do diferencial da colecao: "o que ha de novo nas Primeiras estorias, em relacao a Sagarana, e a libertacao completa do anedotico que antes encompridava a narrativa" (503). O comentario de Costa Lima pode levar a conclusao de que estes contos afastamse de uma diccao mais colada a anedota, ao "causo" popular. Mas isto nao significa que a influencia da literatura oral sertaneja tenha sido rechacada. Gostaria de apontar, brevemente, como o "popular" se insere em um conto especifico da colecao, exemplificando como ocorre o intercambio entre uma voz coletiva (tradicionalmente associada as narrativas orais) e uma manifestacao da expressao individual (especifica da experiencia "solitaria" do romance de autor). Embora de forma menos mimetica, em comparacao a Sagarana, a tradicao oral percorre a tessitura dos contos e seu tratamento reforca um dos temas centrais do livro, que e o confronto entre dois tempos/espacos: o do sertao e o da urbanizacao iminente.

A aproximacao entre literatura e filosofia muitas vezes se da por vias arbitrarias, mas poucas vezes parecera tao natural quanto para dois autores como Guimaraes Rosa e Walter Benjamin, cuja gama de interesses faz convergir para um ponto comum temas ja muito explorados, mas ainda bastante ferteis. A admiracao e a reverencia de Benjamin para com a narrativa tradicional, os contadores de historias e a narrativa como forma de transmitir uma experiencia coletiva e evidente tambem em Rosa. (1) E por isso que, ao abordar a narrativa oral em Primeiras estorias, recorro ao famoso ensaio "O narrador: consideracoes sobre a obra de Nicolai Leskov," publicado por Benjamin na decada de 30.

O ensaio de Benjamin parte de dois pressupostos basicos: 1) narrar significa intercambiar experiencia; e 2) a verdadeira narrativa tem, por natureza, uma dimensao utilitaria. Como se sabe, o narrador neste contexto e o contador de historias, e sua caracterizacao se da por contraste a figura do romancista e a do jornalista. Parte do texto dedica-se a analise do desaparecimento da arte de narrar, que se torna cada vez mais rara no contexto da sociedade moderna, uma vez que a transmissao de experiencia, em seu sentido pleno, nao encontra condicoes de realizacao. E e justamente quando memoria e tradicao coletivas perdem seu lugar de destaque que aparecera o heroi solitario do romance, caracteristico da sociedade burguesa. Jeanne Marie Gagnebin, defendendo a abertura da concepcao de historia e de narrativa deste e de outros ensaios de Benjamin, afirma que sua obra escapa do fechamento de uma nostalgia romantica total, pois reconhece a "perda" como fato inegavel da contemporaneidade mas ao mesmo tempo denuncia como falsa a tentativa de querer se agarrar a ideais esteticos desenraizados do contexto historico real. A obra de Benjamin estaria, assim, aberta a tendencias "progressistas" da arte moderna, que "reconstroem um universo incerto a partir de uma tradicao esfacelada" (12). E mais adiante:

Enquanto a narrativa antiga se caracterizava por sua abertura, o romance classico, em sua necessidade de resolver a questao do significado da existencia, visa a conclusao. Essa oposicao, desenvolvida em 'O Narrador', e, entretanto, recolocada em causa no romance contemporaneo, como o proprio Benjamin vai demonstrar em seus ensaios literarios (Gagnebin 15). …

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