Academic journal article Romance Notes

A Morte E Um Carnaval: Joao Grilo E O Espaco Social Em Auto Da Compadecida

Academic journal article Romance Notes

A Morte E Um Carnaval: Joao Grilo E O Espaco Social Em Auto Da Compadecida

Article excerpt

Auto da Compadecida, peca escrita por Ariano Suassuna nos anos 50, e uma comedia na qual o mundo europeu medieval e festivo de Rabelais parece se transplantar para o sertao popular brasileiro do nordeste. Marcada pela curiosa morte e ressurreicao do protagonista, e baseada em formas literarias medievais e tradicionais do nordeste como a literatura de cordel, esta peca e a fantastica historia carnavalesca de um pobre malandro Joao Grilo acompanhado por seu amigo Chico. Ao longo da peca, este duo dinamico apronta casos tao perplexos quanto comicos entre os demais personagens do pequeno povoado onde vivem. Dando a peca tanto sua materia comica quanto seu olhar critico, os muitos causos dos dois subvertem as hierarquias locais enquanto abrem caminhos para um exame social inerente na obra. Em dialogo com a obra critica de Antonio Candido e Roberto da Matta, este artigo visa analisar alguns momentos e modos que levaram Joao Grilo a subverter a ordem hierarquica do povoado, oferecendo uma interpretacao do espaco social retratado na obra e as suas ramificacoes culturais e literarias.

Esta analise tambem vacila entre a vida e a morte. O momento da morte dos personagens principais causada pelo tiroteio do cangaceiro Severino representa uma linha divisoria entre dois espacos narrativos. Tudo que ocorre na peca enquanto personagens vivos e caracterizado por certa ordem social hierarquizada. Por outro lado, tudo que ocorre depois das suas mortes e marcado nao pela hierarquia, mas pela igualdade. A hierarquia aparente no estado de vida dos personagens provoca a malandragem de Joao Grilo, de acordo com a elaboracao do conceito por Antonio Candido em Dialetica da malandragem publicado em 1970. Portanto, no espaco da morte, Joao Grilo assume outro papel, nao o de malandro, mas o de porta-voz dos mortos. Em contraste com o espaco da vida, o espaco da morte de Auto da Compadecida entende-se melhor na dialetica do carnaval e da igualdade.

1. JOAO GRILO, O MALANDRO DA VIDA

Ao focar o nordeste, Suassuna, em Auto da Compadecida, retrata um espaco social constituido por personagens-tipos, aqueles que se encontram em qualquer pequena cidade da regiao. Estes personagens sao: o clero; o coronel, dono de imensos terrenos; os comerciantes, padeiro e a esposa; e Joao Grilo e Chico, os pobres moradores do povoado. Como grupo, estes compoem o corpo dos agentes narrativos principais da regiao. E, de um modo geral dentro do esquema da peca, cada um cumpre o papel que a sociedade lhe demanda, obedecendo assim a uma ordem geral. Porem, as vezes, Joao Grilo da um "jeitinho" que o deixa subverter esta ordem. Sao estes momentos em que a hierarquia e subvertida que concedem a peca o seu carater social. Por meio de Joao Grilo, a peca expoe a necessidade de o pobre nordestino ser astuto e ser malandro. Um malandro, de acordo com Antonio Candido, e um trickster que "pratica a astucia pela astucia (mesmo quando ela tem por finalidade safa-lo de uma enrascada), manifestando um amor pelo jogo-emsi" (26). Esta astucia que o malandro pratica nao e apenas para assegurar a sobrevivencia, mas tambem para tirar algum proveito de uma vida cheia de provacoes e privacoes. Esta qualidade estabelece, como Candido aponta no seu artigo, lacos textuais com a literatura picaresca, mas de um modo explicitamente brasileiro. Para um pobre como Joao Grilo, a vida e mais divertida quando consegue enrolar os outros personagens que, pela ordem hierarquica, deviam domina-lo. Conversando com Chico, Joao Grilo confessa: "So assim que posso me divertir. Sou louco por uma embrulhada" (Suassuna 28). Este "amor pelo jogo em si" e demonstrado varias vezes na peca. Para dar um exemplo, ha a cena do cachorro morto que se apresenta logo no comeco da peca. Neste episodio, o cachorro da esposa do padeiro encontra-se doente e, para que o cachorro se salve, ela quer que o cachorro seja abencoado pelo padre. Joao, percebendo como a ordem social funciona, insinua ao padre que o cachorro e de Antonio Moraes--o superior do padre na hierarquia local --para que o padre faca questao de abencoa-lo. …

Search by... Author
Show... All Results Primary Sources Peer-reviewed

Oops!

An unknown error has occurred. Please click the button below to reload the page. If the problem persists, please try again in a little while.