Academic journal article Romance Notes

Un Coup De Des: La Lyrique a Venir

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Un Coup De Des: La Lyrique a Venir

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PERSEGUINDO o itinerario da lirica moderna, nao se pode negar que a obra de Stephane Mallarme tenha-se configurado como decisiva para o estabelecimento de uma nova concepcao de poesia no ocidente. Tambem parece inquestionavel, embora seja em si mesmo um paradoxo semelhante ao ocorrido com Rimbaud, o fato de que a lirica enigmatica e isolada de Mallarme tenha exercido tamanha influencia sobre poetas como Valery, George Moore, Swinburne, T.S. Eliot, Ungaretti.

Muitos sao os fatores que tornam a lirica mallarmeana tao inusitada. Contudo, vale lembrar que suas raizes remontam ao Romantismo, cuja poetica foi se diferenciando, cada vez mais, a partir de Baudelaire. Sendo assim, e, sobretudo, em Mallarme que se torna possivel constatar: a ausencia de uma lirica do sentimento e da inspiracao; uma fantasia guiada pelo intelecto; o aniquilamento da realidade e das ordens normais, tanto logicas como afetivas; o manejo das forcas impulsivas da lingua; a ruptura com a tradicao humanistica e crista e um certo nivelamento do ato de poetar com a reflexao sobre a composicao poetica, predominando, nesta, categorias eminentemente negativas (Friedrich 95).

o dialogo que se estabelece entre tradicao e ruptura em Mallarme percebe-se justamente pela dinamica de seu proprio fazer literario. Conforme assinala Mario Faustino, em livro postumo de 1964 (Stephane Mallarme), citado por Haroldo de Campos em seu prefacio a traducao brasileira de Un Coup de Des e outros poemas, pode-se vislumbrar, grosso modo, pelo menos quatro Mallarmes:

O Mallarme parnasiano-simbolista da primeira fase, que ainda e Baudelaire, Gautier e Verlaine (...) e de obras tipicamente simbolistas como Brise Marine; o Mallarme que reconcilia a lingua francesa com Racine e antecipa Valery (Herodiade, L'Apres-Midi d'un Faune); o penultimo e o ultimo Mallarme, que seriam fundamentais para o leitor atual (...) de Plusieurs Sonnets, Hommages, Tombeaux, Salut (e acrescenta Haroldo de Campos Un Coup de Des) [...] Ai Mallarme leva a um ponto maximo, ate hoje nao mais atingido, uma linguagem (a poetica) e uma lingua (a francesa). (Faustino qtd. in Campos et al. 26)

E exatamente esse ultimo Mallarme, criador de Igitur e, sobretudo, de Un Coup de Des, que se tornaria uma especie de "divisor de aguas" da lirica ocidental, posto que, a partir dessa fase de sua poesia, Mallarme comecaria a denunciar a falacia e as limitacoes da linguagem discursiva, para anunciar, "num lance de dados," um novo campo de relacoes e possibilidades do uso da linguagem, para o qual convergem a linguagem da musica, da pintura, do jornal e do cinema (27).

Mas a verdadeira singularidade de Mallarme evidencia-se ja na segunda fase de sua poesia, que comeca em 1870, visto que nela Mallarme aperfeicoa a concepcao, reconhecida desde Baudelaire, de que a fantasia artistica nao consiste em "reproduzir" de forma idealizadora, mas, sim, de "construir" uma dada realidade. Ele concebe essa realidade, conferindo-lhe um fundamento ontologico que nasce da realidade artificial da linguagem. Assim, a poesia passa a ser o unico espaco em que o absoluto e a linguagem poder-se-iam encontrar. No entanto, a nocao de absoluto, nesse contexto, se mostra vazia de transcendencia, uma vez que, em Mallarme, se existe algum resquicio de transcendencia, resumese apenas ao Nada. Ademais, ha que se ressaltar que nada (rien, nihil) e uma palavra-chave em Mallarme. E em torno dela o poeta desenvolveu toda uma estetica de niilismo que marca definitivamente sua escritura. Essa tendencia ao paroxismo em relacao ao nada ira intensificar-se cada vez mais em sua poesia ate a experiencia extrema de Un Coup de Des.

Como explicam os irmaos Campos, juntamente com Decio Pignatari, no Exordio da traducao em portugues de Un Coup de Des (1897) publicada em 1980, "[t]raduzir o Coup de Des de Mallarme e, antes de tudo, uma 'operacao de leitura', no sentido mallarmeano da expressao: dobragem, dobra, dobro, duplo, duplicacao, dacao em dois, doacao--dados (texte em deux). …

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