Academic journal article Romance Notes

Representacoes Da Morte No Cancioneiro Infantil E Juvenil (Oral E Escrito) Portugues

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Representacoes Da Morte No Cancioneiro Infantil E Juvenil (Oral E Escrito) Portugues

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No mundo ocidental, sao muitas as vozes que nos vao lembrando, de tempos a tempos, que ja nao sabemos encarar a morte com frontalidade e dignidade. Assumiu-se que falar da morte e produzir uma dor ou um mal-estar que colidem com os valores da nossa sociedade, cada vez mais voltada para o culto da beleza e da eterna juventude. Ate sensivelmente as decadas de 70 ou 80 do seculo passado, a sociedade portuguesa, sobretudo a mais rural, nao escondia dos mais novos as doencas, o envelhecimento e a morte dos entes queridos, e o cancioneiro infantil e juvenil era uma das grandes expressoes e uma das fontes de todos estes temas. Hoje, estas sao questoes praticamente silenciadas, dir-se-ia ate proibidas, e por isso muitas criancas sao educadas sem o conhecimento da morte. Partindo destes pressupostos, abordaremos neste artigo a questao da morte na poesia oral e tradicional infantil portuguesa moderna e contemporanea. Veremos, em particular, se a morte aparece mais como personagem ou mais como acontecimento, refletiremos sobre os seus tipos e as suas incidencias semanticas, simbolicas e pragmaticas, e discutiremos se vale a pena trazer estes textos para o contexto educativo.

No atual cancioneiro oral infantil portugues, ao que sabemos, nao ha ja vestigios de textos em que a morte e essa personagem complexa e enigmatica que sempre fez parte de mitos, lendas e contos tradicionais; e a morte como acontecimento (funcao cardinal ou microevento) tambem nao e propriamente muito contemplada. Mas isto nao significa que as criancas portuguesas nao podem ter qualquer contato com poemas tradicionais em que a morte cumpre a sua funcao de ato de linguagem que cria significados para a vida individual e da sociedade. Esta carencia pode ser em parte suprida atraves da leitura e do aproveitamento didatico de textos literarios orais, recolhidos e editados por autores e estudiosos da literatura infantil e juvenil portuguesa, como os que analisamos neste artigo.

Textos, dirigidos em especial ao leitor infantil e juvenil, de escritores como Sophia de Mello Breyner e de Antonio Mota dizem-nos que assumir e pensar a morte pode ser essencial para a construcao de uma vida mais livre e integral, despojada de algumas das obsessoes que nos afastam de valores fundamentais como a dignidade, a solidariedade e o amor (Nogueira, "Death" 93-111). Encobrir e simplificar o desaparecimento de alguem a uma crianca e promover o que, em linguagem antropologica e sociologica, se designa por "morte social." A vida de quem morre deixa de poder ser significativa para os vivos, e em especial para as criancas e os jovens, cujo universo de referencias fica necessariamente empobrecido.

Hoje, a crianca e protegida de tudo o que se relaciona com a verdade e as imediacoes da morte. Os avos padecem e morrem sozinhos num hospital sem ver os netos, em casa nao se fala de morte porque dizer a morte e produzi-la. De um tempo em que os mais novos eram afastados dos hospitais por receio de contagios, passou-se, numa epoca em que a ciencia reduziu os riscos de transmissao de doencas, ao apagamento da morte da visao e da memoria infantis.

Janet Goodall observa que esta atitude contraria a vontade das criancas, que, regra geral, nao querem ser excluidas dos rituais que acompanham a morte de um familiar ou amigo. A autora nao so tem concluido que a exclusao e mais perturbadora do que a inclusao, e que "Parents and children belong together, even (perhaps particularly) when one of them is in hospital" (232-33), como tambem se percebe cada vez mais que "A bright child, or one that has endured much, will mature more quickly, as experience accelerates understanding" (235). Nao falar da morte e da sua irredutibilidade quando alguem esta a morrer pode levar a que a crianca se sinta responsavel pelo ambiente de pesar e desconforto que se cria; e pode por isso implicar que ela veja uma punicao numa simples ida a um centro de saude ou a um hospital para fazer exames de rotina (Goodall 234). …

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