Academic journal article Diálogos Latinoamericanos

Dom Quixote Em Cordel De J. Borges: Uma Adaptação Brasileira De Cervantes

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Dom Quixote Em Cordel De J. Borges: Uma Adaptação Brasileira De Cervantes

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Abstract

Dom Quixote em cordel (2005), by J. Borges, is an adaptation of Cervantes's masterpiece to a Brazilian scenery; the renowned folk artist represents a number of scenes from Cervantes's novel proposing the identification of its characters with some typical individuals from the Northeastern backlands, especially those related to banditry. The objective of this article is to conduct a brief analysis of Borges's poem, in which it is given special attention to the identification between the imaginary territories of La Mancha and Brazilian Northeast. Under this perspective, historical characters, such as the highwaymen Lampiäo and Maria Bonita, play an important role as representatives of Brazilian irredentism. They are considered, in the work of Borges, emblems of peculiar aesthetics highwaymen.

Keywords: Don Quixote; Spanish literature; adaptation; Brazilian literature; string literature; J. Borges.

Em 2005, ano da celebraçâo do IV Centenário da publicaçâo da primeira parte do Dom Quixote, urna discreta e curiosa homenagem ao texto cervantino foi publicada em terras brasileiras. Dom Quixote em cordel - adaptado da obra de Miguel de Cervantes foi editado com ilustraçoes a cargo de Jô Oliveira, artista conterráneo do famoso xilogravador pemambucano J. Borges. O objetivo do presente artigo é realizar urna análise sucinta desta adaptaçao, retomando alguns dos aspectos da recepçâo da obra prima cervantina no poema de J. Borges.

No que concerne à abundante bibliografía sobre a chamada literatura de cordel (De Meló, 1980) ou literatura popular (Luyten, 1983) do Brasil, sempre chamaram a atençâo as constantes tensöes entre o popular/erudito, o modemo/tradicional, o local/universal, o escrito/oral. Com a noticia da obra de J. Borges, este artigo15 pretende sugerir outra possibilidade de lidar com essas dicotomias, apresentando a imagem do cangaceiro (comparada à da figura literaria do Quixote cervantino) como síntese estética possível desses polos opostos aparentemente irreconciliáveis, a partir da ideia de "estética do cangaço" (Pemambucano de Mello, 2010).

Antes de ir ao texto de J. Borges, é importante lembrar que o lastro deixado pela literatura espanhola na arte brasileira de inspiraçâo popular, sobretudo na do Nordeste brasileiro, näo data dos nossos dias. Em alguns reconhecidos nomes da literatura brasileira, tal como Ariano Suassuna, o diálogo entre elementos da tradiçâo cultural peninsular (entre eles os do romance picaresco espanhol, por exemplo) e a cultura popular do Nordeste brasileiro chegaram a configurar urna verdadeira estética, que rende frutos para além das obras do romancista paraibano16. É exatamente numa perspectiva estética que se propöe aqui urna aproximaçâo ao Quixote de J. Borges, autor que é apresentado por Ferreira (2006: 6) como 'acima de tudo, um artista com as qualidades que só a cultura popular sabe gerar'.

Neste contexto, a novidade da obra de J. Borges é a configuraçâo desse tipo de diálogo a partir de urna linguagem de origem popular, como é a da chamada literatura de cordel, apesar de que sua obra procura supera as classificaçoes da mesma como género literario estabelecido (Meyer, 1980, 1993; Galväo, 2001; Abreu, 2005), na medida em que busca justamente escapar das tensöes mencionadas no inicio deste artigo. Editado como livro e näo como folheto, Dom Quixote em cordel parte das formas reconhecidas da poesia de cordel, mas as leva a outro meio de circulaçâo, colocando assim de relevo a busca de urna síntese estética que vá além da dicotomía entre popular/erudito, e sublinhando a visäo de mundo através da quai se configura a já mencionada "estética do cangaço", noçâo também sublinhada por Costa (2010).

Se bem é verdade que no poema de J. Borges o tema central é a viagem do Cavaleiro da Triste Figura ao Brasil, também é certo que, desde o ponto de vista formal, a recepçâo ficcional da fábula cervantina opera no seu texto urna aproximaçâo entre a personagem do fidalgo manchego e o imaginário popular do Nordeste brasileño a partir da figura do cangaceiro, compreendido como "imagem de síntese" (Pemambucano de Mello, 2010: 21) de toda urna cultura. …

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