Academic journal article Bulletin of Hispanic Studies

O Acontecer Da Voz Materna: Ressonâncias

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O Acontecer Da Voz Materna: Ressonâncias

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A história tem seus movimentos: guerras, revoluções sócio-econômicas, reviravoltas políticas. Assim dito, o desenrolar da história parece ser uma trama narrativa que vamos destramando, desentranhando das páginas, folha a folha, como se pudéssemos nos eximir desta mesma história. Leitores refestelados em nossas poltronas de veludo verde -talvez sem jamais termos crido em Cortázar, sem nos voltarmos para trás, à procura daquele que chega, inevitavelmente- não nos damos conta, nem através de um relato, da continuidade histórica.1 E não há como dizê-la a contento. Ou, pelo menos, eu não sei como dizê-la a contento. No momento, o único que posso afirmar é que: morre-se. Tragicamente, a história perde vidas, antes do que poderíamos prever como o tempo de uma vida. Vidas humanas, nomeadas, familiarizadas: uma mãe, um filho. E como reagir à perda? Há uma convivência com a perda e, mais especificamente, com a perda materna? E, mesmo quando esta perda já se instalou enquanto tal, quando já a aceitamos como irremediavelmente dada, como podemos dar conta desta voz materna que irrompe em meio à perda? Como respondemos a esta voz? Que escuta lhe caberia? Em dois textos aparentemente díspares -Angústia, de Graciliano Ramos (1997), e 'O apocalipse privado do tio Geguê', de Mia Couto (1990)- a voz materna irrompe como uma referência sônica para o sujeito, servindo-lhe de apoio em meio ao desmoronamento de seu universo social e familiar. Frente à perda da mãe, este irromper converte-se, porém, tanto em impossibilidade quanto numa voz que é fala do impossível. Enquanto tal, a voz materna apresenta-se, no quadro familiar e em meio a uma diversidade de acontecimentos sônicos, como constitutiva de uma subjetividade em processo, marcada pela alteridade.

Comecemos pois de um ponto fulcral, o princípio do último bloco narrativo do romance Angústia, no qual o protagonista e narrador, Luís da Silva, relata um surto psicótico, seu mais extremo descolamento do real, refletido numa desorganização lógica que pouco a pouco toma conta de sua narrativa. 'A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo -e era por aí que se via que o tempo passava', comenta Luís da Silva (Ramos 1997: 218). E continua:

Mas no tempo não havia horas. O relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante o dia.... Depois, a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. (1997: 218)

Há, neste princípio de narrativa que pouco a pouco irá se destecendo, dois tipos de impressões sensoriais associadas a diferentes temporalidades. Primeiro, impressões visuais, a luz do sol que entra pelo quarto e que, através de seu caminhar pelas paredes e móveis, marca a passagem do tempo. Segundo, impressões sônicas que, em sua caótica presença, reverberam numa certa acronia. O calar das horas propicia o ouvir rumores de uma alteridade (o de-fora do sujeito), rumores constitutivos deste tempo que passa, acronicamente, sem que se confundam com este, nem mesmo formem parte deste tempo. Pelo contrário, a superposição sônica -que a enumeração indica linguisticamente- dá-se numa sincronicidade desconexa, não-sequencial, ilógica. Através desta sincronicidade, particular aos eventos sonoros, impõe-se uma aporia: os rumores da alteridade encontram-se, simultaneamente, dentro e fora do tempo, aproximando-se de um alargamento do silêncio, uma distenção que, partindo de uma falta, o faz ganhar corpo.

De fato, os silêncios que o protagonista percebe em seu estado de desquilíbrio psico-somático não são mera ausência de som. Nestes silêncios, Luís 'escorregava..., boiava... como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície, tentava segurar-[se] a um galho' (Ramos 1997: 218). …

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